
Por Francisco Tramujas, Especialista em Vendas & Marketing Estratégico Autor de Marketing Estratégico para Revolucionar Mercados
Li com atenção o artigo “Uma Aula de Economia para o Presidente”, de Walter Maciel CEO Quest uma gestora de fundos de investimento com mais de R$11 bi em ativos geridos pela empresa.
Confesso: mais do que uma aula, o texto revela um velho vício do pensamento econômico brasileiro — o moralismo fiscal desconectado da história real do desenvolvimento das nações.
A narrativa é sempre a mesma: “O problema do Brasil é o gasto público. O Estado é ineficiente. O ajuste é condição para crescer.”.
Esse discurso soa técnico. Mas, na prática, é ideológico, seletivo e funcional aos interesses do rentismo financeiro. E isso não é opinião. É fato histórico.
1. AUSTERIDADE NÃO CRIA NAÇÕES DESENVOLVIDAS. INVESTIMENTO CRIA.
Nenhuma — absolutamente nenhuma potência econômica do mundo se desenvolveu sob o dogma da austeridade permanente.
Estados Unidos
- O New Deal (1933–1939) elevou a dívida pública americana de 40% para quase 120% do PIB.
- Foi esse gasto maciço em infraestrutura, indústria, obras públicas e empregos que tirou os Estados Unidos da Grande Depressão.
- Depois, veio o Plano Marshall (pós-2ª Guerra), novamente baseado em endividamento e investimento estatal pesado.
Hoje:
- Dívida pública dos EUA supera 120% do PIB.
- E, ainda assim, seguem investindo trilhões em indústria, chips, energia e defesa.
Austeridade? Nunca foi a estratégia norte-americana. Expansão produtiva sempre foi.
China
- A China simplesmente ignorou o receituário neoliberal.
- Criou:
- Bancos estatais fortes.
- Planejamento central.
- Investimento pesado em infraestrutura, indústria, educação e tecnologia.
Resultado:
- Tirou mais de 800 milhões de pessoas da pobreza.
- Criou o maior parque industrial do planeta.
- Hoje desafia os Estados Unidos em tecnologia, defesa, energia e inteligência artificial.
Déficit? Sempre houve.
Endividamento? Sempre existiu.
Mas o dinheiro foi para produção, não para rentismo.
Singapura (o exemplo que o mercado adora citar — mas cita pela metade)
Singapura só virou Singapura porque:
- O Estado investiu de forma massiva por décadas.
- Criou empresas estatais estratégicas.
- Planejou habitação, logística, educação e indústria.
Nos anos iniciais:
- Déficits públicos elevados.
- Forte intervenção do Estado.
- Controle estratégico do solo, do crédito e da infraestrutura.
Mas curiosamente, quando se fala em Singapura no Brasil, omite-se isso.
Fala-se apenas de “eficiência”, como se ela tivesse brotado do nada.
2. O DISCURSO DA AUSTERIDADE NO BRASIL NÃO É TÉCNICO. É FINANCEIRO.
Quando economistas da Faria Lima defendem:
- Corte de gastos.
- Contenção de investimentos.
- Ajuste fiscal a qualquer custo.
Eles não estão protegendo o povo.
Estão protegendo a remuneração da dívida, os juros altos, os spreads bancários e os ganhos do sistema financeiro.
No Brasil:
- Mais de 45% do orçamento federal vai para pagamento de juros e serviço da dívida.
- Bancos seguem com:
- ROE acima de 20%.
- Lucros bilionários mesmo em recessões.
- Enquanto isso, o Estado:
- Investiu menos de 1% do PIB em infraestrutura por anos seguidos.
- Quando o mínimo para um país emergente crescer seria algo entre 3% e 5% do PIB.
A conta não fecha para o país.
Mas fecha — e muito bem — para o sistema financeiro.
3. AUSTERIDADE EM PAÍS SUBDESENVOLVIDO NÃO É VIRTUDE. É SUSPENSÃO DE FUTURO.
Cortar investimento público em:
- Transportes.
- Logística.
- Saneamento.
- Energia.
- Educação.
- Ciência e tecnologia.
É o equivalente macroeconômico de:
“Economizar no motor para preservar a aparência da lataria.”
O multiplicador fiscal do investimento público em infraestrutura no Brasil já foi medido diversas vezes:
- Cada R$ 1 investido gera entre R$ 1,7 e R$ 2,4 no PIB ao longo do tempo.
- Gera arrecadação, emprego, consumo, produtividade e competitividade.
Austeridade corta exatamente esse circuito virtuoso.
4. O CONTRAPONTO DO ECONOMISTA JOSÉ KOBORI É MAIS HONESTO
José Kobori incomoda porque ele rompe com o dogma:
“Primeiro ajuste, depois crescimento.”.
Ele afirma o oposto:
“Sem crescimento produtivo, não existe ajuste fiscal sustentável.”.
E a história lhe dá razão.
Países que tentaram se ajustar pela compressão permanente do Estado:
- Grécia.
- Portugal (pré-reestruturação).
- Argentina em vários ciclos.
- Parte da América Latina pós-Consenso de Washington.
Resultado:
- Desindustrialização.
- Aumento da dependência externa.
- Crescimento anêmico.
- E, ironicamente, mais endividamento relativo.
O ajuste destrói a base que geraria arrecadação futura.
5. A GRANDE FALÁCIA: TRATAR O ESTADO COMO DESPESA, NÃO COMO ATIVO
O texto do Walter Maciel parte de uma premissa perigosa:
O Estado é sempre custo.
Historicamente, o Estado é:
- Indutor de infraestrutura.
- Garantidor de crédito de longo prazo.
- Organizador da base produtiva.
- Protetor dos ciclos estratégicos da indústria.
Sem BNDES, Petrobras, Embrapa, Eletrobras, Itaipu, Vale (antes da privatização), o Brasil sequer teria se industrializado.
Recomendo o meu outro artigo onde provo que o Estado no mundo é o impulsionador dos grandes projetos de inovação de longo prazo.
O Vale Da Morte – https://jornaldopovoparana.com.br/2025/11/24/vale-de-morte-o-que-voce-precisa-entender-para-salvar-sua-empresa-e-talvez-sua-carreira/
Austeridade permanente significa:
- Substituir projeto de nação por planilha contábil.
- Trocar desenvolvimento por rating.
- E soberania por compliance financeiro.
6. O QUE ESTÁ EM JOGO, DE FATO, NÃO É ECONOMIA — É PODER
O debate não é técnico.
É estrutural.
Austeridade:
- Beneficia quem vive de renda financeira.
- Penaliza quem vive de trabalho, indústria, produção e inovação.
Desenvolvimentismo:
- Redistribui.
- Cria mobilidade.
- Forma mercado interno.
- Constrói soberania produtiva.
Por isso o embate é tão duro.
Porque não é uma divergência de cálculo — é uma disputa de modelo de país.
CONCLUSÃO: AUSTERIDADE NÃO É RESPONSABILIDADE. É OPÇÃO POLÍTICA.
Responsabilidade fiscal é:
- Gastar bem.
- Investir certo.
- Planejar o desenvolvimento.
- Fazer o dinheiro girar na economia real.
Austeridade cega é:
- Cortar investimento.
- Preservar rentismo.
- Congelar o futuro.
- E vender isso como “virtude técnica”.
O discurso de parte dos economistas do mercado financeiro brasileiro não é neutro.
Ele tem lado.
E este lado não é o do desenvolvimento nacional.
Se o Brasil insistir em tratar investimento como pecado e banco como prioridade moral, continuaremos exatamente onde estamos: com balanço “ajustado”, povo empobrecido, indústria frágil e soberania cada vez mais terceirizada.
ps. No fim das contas, é a velha cena do galinheiro: a raposa sobe no palanque, discursa sobre responsabilidade na produção de ovos e garante que já há ovos demais. Coincidentemente, são os mesmos ovos que ela pretende continuar levando para casa.
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