
Por Francisco Tramujas, Especialista em Vendas & Marketing Estratégico Autor de Marketing Estratégico para Revolucionar Mercados
Há algo de profundamente distorcido na forma como o Brasil transforma ideias de aprendizado em produtos de consumo rápido.
Pegamos conceitos sofisticados, simplificamos até o limite do ridículo e vendemos como inovação educacional aquilo que, no fundo, é um velho modelo de ensino conteudista travestido de modernidade digital.
E a G4 – com todo o marketing que a cerca, mas não é a única – é o caso mais emblemático dessa tendência.

O Ensino que Não Ensina
Quando olho para o formato da G4, é impossível não lembrar das escolas que, infelizmente, conheci como aluno. Lá, desde o primeiro ano do segundo grau, o objetivo nunca foi formar pensadores.
A métrica era outra: quantas páginas de resumo o aluno conseguia produzir em 50 minutos de aula.
Era uma lógica industrial de produção de apostilas — uma obsessão por “entregar conteúdo” sem se importar com o que realmente acontecia dentro da cabeça do estudante.
O resultado disso foi previsível: muitos alunos decoravam, poucos compreendiam.
O auge da superficialidade veio com o infame Memorex: o “resumo do resumo”, uma coletânea de frases-chave para decorar antes do vestibular. Nenhuma provocação, nenhum raciocínio, nenhuma dúvida. Apenas a ilusão de aprendizado.
E isso reverberou tanto que está máquina de resumos, apostilas e ensino decoreba se tornou uma lucrativa indústria da educação no ensino privado, e que também hoje domina o ensino público através de suspeitas licitações que fez secretarias de educação por todos os estados brasileiros abandonarem os livros para focar nas famosas apostilas (e seus mágicos resumos).
O Novo Memorex Digital
E agora, em pleno século XXI, vejo esse mesmo modelo ressurgir com ares de educação executiva moderna.
A diferença é que o Memorex virou Playbook, e o quadro negro foi substituído por uma apresentação em PowerPoint com slogans de growth e funil de vendas.
Na prática, pouca coisa mudou.
A G4 — e outras escolas de negócios de mesma fórmula — criam uma cultura de aprendizado rápido, raso e replicável.
Não é sobre aprender a pensar. É sobre consumir fórmulas prontas, decorar frameworks e vomitar jargões como “go to market”, “CAC”, “LTV”, “escala exponencial” e “playbook de sucesso”.
O modelo é perfeito não para quem quer aprender de verdade, mas para quem quer parecer que aprendeu.
É o ensino reduzido à performance de palco.
A educação transformada em entretenimento corporativo.

A Economia da Atenção e o Ensino da Superfície
A neurociência já nos mostrou que aprendizado real exige tempo, repetição espaçada e reflexão ativa.
Daniel Kahneman, em Rápido e Devagar, explica que o pensamento profundo acontece no chamado Sistema 2 — lento, deliberado e desconfortável. Mas, nas plataformas de educação imediatista, esse sistema é sistematicamente evitado.
Por quê? Porque pensar cansa — e cansa não vende.
Vivemos na economia da atenção, como descreve Herbert Simon; o recurso escasso não é o conhecimento, é o foco.
Por isso, a nova geração de cursos corporativos prefere entregar vídeos curtos, frases de efeito e templates de sucesso.
É o mesmo princípio das redes sociais aplicado à educação: quanto menos reflexão, mais engajamento.
Mas o custo dessa lógica é alto: estamos formando executivos que sabem repetir frameworks, mas não conseguem criar novos caminhos quando o manual falha.
Da Superficialidade à Incompetência Estratégica
As empresas que hoje buscam profissionais de alta performance colhem os frutos dessa superficialidade. Temos gestores que citam Philip Kotler, mas nunca leram uma linha de Marketing 4.0.
Falamos de growth mindset sem compreender a psicologia de Dweck.
E vendemos cultura de inovação sem entender que inovação nasce de questionamento — não de decorar playbooks.
Em vez de líderes pensantes, formamos devoradores de fórmulas, ansiosos por repetir os mesmos slides de quem deu certo no Vale do Silício.
É a ilusão de sabedoria substituindo a sabedoria real.
E como dizia Sócrates — talvez o primeiro mentor de negócios da história —:
“A sabedoria começa na admissão da própria ignorância.”.
Mas o modelo G4 não tem espaço para ignorância, dúvida ou reflexão. Tem espaço apenas para certezas vendáveis.

O Que Faz uma Escola de Negócios Ser de Verdade
Nas escolas de negócios de verdade muitas das quais tive o prazer de assistir ou participar — como a Fundação Dom Cabral, INSEAD, Harvard, Stanford — o conteúdo é apenas o ponto de partida.
O valor está na discussão, na divergência de pensamento, no estudo de caso vivo em que o aluno é forçado a decidir com base em dados, contexto e intuição.
Não há playbook que funcione em todos os cenários.
É justamente o desconforto da reflexão que forma líderes capazes de navegar em incertezas. E é disso que o mercado precisa — de gente que pensa antes de agir, e não de quem repete antes de entender.
O Vestibular do Empreendedorismo
A G4, com toda sua estética digital e seu marketing bem orquestrado, criou um novo tipo de vestibular: o vestibular do empreendedorismo.
Ali, quem decora mais jargões, entende menos de gente.
Quem consome mais aulas, reflete menos sobre a própria prática.
E o problema não é vender conhecimento — é vender atalhos mentais travestidos de sabedoria. E o mercado vai continuar separando os que aprenderam de verdade dos que apenas colecionaram certificados.
Porque, no fim, não é o diploma que cria líderes — é o pensamento crítico, a curiosidade e a capacidade de conectar o que ninguém mais está vendo.
E isso, infelizmente, nenhum Memorex digital é capaz de ensinar.

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