
O Portal Marília Hoje apresenta uma entrevista exclusiva Dr. Thiago Gomes, médico de família e prescritor de cannabis medicinal e especialista na área, sobre a recente decisão da Anvisa que autoriza o cultivo de cannabis por pessoas jurídicas no Brasil. A medida marca um novo capítulo para a pesquisa, a produção nacional e o acesso a tratamentos à base de cannabis, trazendo impactos diretos para pacientes, profissionais de saúde e o setor regulado. Na entrevista, o médico analisa o que muda na prática, os desafios da regulamentação e as perspectivas para a cannabis medicinal no país.

MH – Como o senhor avalia a decisão da Anvisa de autorizar o cultivo de cannabis por pessoas jurídicas no Brasil? Que impacto prático isso traz para médicos e pacientes?
TG – Esta iniciativa já era aguardada há muito tempo. Desde o ano de 2015 temos a liberação por parte da ANVISA em assuntos ligados à cannabis medicinal, porém o cultivo era proibido e os projetos de lei estavam e continuam parados no SENADO e na CÂMARA DOS DEPUTADOS. Estas resoluções publicadas na segunda-feira – 02 de fevereiro no Diário Oficial da União não teriam efeito se não fosse a pressão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) por meio de uma medida proferida em novembro de 2024, que reconheceu a legalidade da produção de cannabis “para fins exclusivamente medicinais e/ou farmacêuticos, atrelados à proteção do direito à saúde. Mesmo com esta decisão da ANVISA, o Brasil está atrasado em relação à vários países do mundo, pois a regulação do cultivo permite a organização de toda uma cadeia produtiva para garantir produtos com qualidade e segurança.

MH – A venda de canabidiol em farmácias de manipulação muda o acesso ao tratamento? O que pode melhorar — e o que ainda preocupa?
TG – Sim, com a manipulação o acesso fica facilitado. Por outro lado, a necessidade de um rastreamento de insumos que ainda serão importados é um ponto de preocupação, pois haverá necessidade de um controle rigoroso dessas substâncias, conhecidas como IFA´s – ingrediente farmacêutico ativo (IFA) – que é fundamental na formulação de um fármaco porque está nele a substância capaz de produzir o efeito desejado.
MH – Do ponto de vista clínico, quais doenças ou condições devem se beneficiar mais com essa ampliação do uso medicinal da cannabis?
TG – Temos evidências científicas robustas para quadros de epilepsia refratária, principalmente em crianças em que o uso do canabidiol (CBD) transformou a vida destas famílias. Além disso, quadros como Esclerose Múltipla, dor crônica, principalmente a dor neuropática, quadros resistentes de tratamento de ansiedade e depressão, transtorno do espectro autista – TEA, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade – TDAH, síndrome de Parkinson e Doença de Alzheimer. Todas estas condições têm demonstrado benefícios com o uso do CBD.
MH– O limite de até 0,3% de THC é adequado para garantir segurança e eficácia terapêutica? Em quais casos esse teto pode ser um desafio?
A Anvisa publicou a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 1.013/2026, que entra em vigor em 4 de agosto de 2026, permitindo o cultivo de Cannabis sativa no Brasil com limite de 0,3% de THC (tetra-hidrocanabinol) nas inflorescências secas. A norma visa o uso estritamente medicinal, farmacêutico e de pesquisa, exigindo autorização especial. Na verdade, esta questão do THC é um dos pontos mais polêmicos, até entre cientistas e pesquisadores. Se considerarmos que existe um sistema endocanabinóide (SEC), o uso de produtos de cannabis que contenham tanto CBD, quanto o THC, favorecem o equilíbrio deste SEC. Ele é um sistema biológico complexo e fundamental responsável por regular homeostase, dor, inflamação, humor e metabolismo em humanos e animais O problema do THC é que em altas doses os efeitos se tornam muito preocupantes, e é isto que precisa ser diferenciado. Quando alguém utiliza um cigarro de maconha, esta pessoa não sabe exatamente a quantidade de THC que existe, mas há indícios de que passa de 15 mg e isso vai diretamente ao pulmão e, consequentemente à corrente sanguínea e ao sistema nervoso. As reações e sensações agradáveis e desagradáveis trazidas pelo uso do THC devem ser manejadas por profissionais de saúde qualificados, quando existir a prescrição. Vale a pena reforçar que não está autorizado o uso adulto/recreativo da cannabis sativa L. no Brasil. Mas para casos de cuidados paliativos, náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia, Esclerose Múltipla, dor crônica, muitas vezes o THC é o grande aliado na terapêutica. O maior desafio é que uma planta de cannabis no Brasil terá muita dificuldade em se manter com uma concentração menor do que 0,3%, a não ser que fique em estufas e temperaturas mais frias e reguladas, e isso vai encarecer bastante a produção.
MH – A autorização de novas vias de administração (bucal, sublingual e dermatológica) amplia as possibilidades de tratamento? Em que situações cada uma é mais indicada?
TG – As novas vias de administração vão permitir que outras condições clínicas possam se beneficiar do uso de canabidiol, como psoríase e outras dermatites, dores em que as pomadas poderão facilitar o efeito anti-inflamatório e, no caso da saúde bucal, cirurgiões-dentistas podem prescrever cannabis medicinal para condições como transtorno de disfunção mandibular e bruxismo.

MH – Com a criação de um comitê envolvendo vários ministérios, o senhor acredita que haverá mais segurança jurídica e sanitária no setor?
TG – Esta deverá ser a nova postura das entidades governamentais, embora não pareça que vai ser criada uma agência reguladora específica para a planta – como ocorre em outros países. Para termos mais segurança jurídica e sanitária, a questão deve ir além da ANVISA e ser votada no Congresso Nacional como uma pauta estratégia para nossa economia, utilizando todos os potenciais que desta planta que foi tão desconhecida em vários aspectos produtivos. Quando falamos de cânhamo industrial (planta de cannabis com teor de THC menor que 0,3%) estamos falando de um setor que pode ajudar a indústria têxtil, papel e celulose, bioplásticos, biocombustíveis, construção civil, cosméticos, alimentos com a semente que é rica em nutrientes e na nutrição animal com rações e suplementos. Além disso, tem grande impacto ecológico e agronômico, a pegada de carbono gerando um meio ambiente mais saudável (menos consumo de água, fitorremediação e regeneração do solo) e a possibilidade de ser uma nova cultura dentro do agronegócio brasileiro com relevância social e econômica.

MH – Hoje o Brasil já tem cerca de 873 mil pacientes em tratamento com cannabis. O que explica esse crescimento acelerado nos últimos anos?
Esta é uma aproximação baseada em importações que são reguladas pela ANVISA na RDC 660/2022 e nas vendas de produtos nas farmácias (temos 49 liberados atualmente). Se considerarmos que existem mais de 100 associações de pacientes que buscam por meio de liminares na justiça o direito de produção este número é bem maior. Quando utilizamos dados estatísticos das condições clínicas que podem ser beneficiadas ainda estamos distantes do alcance deste mercado. Agências internacionais e institutos especializados estimam um número de até 7 milhões de pessoas no Brasil que teriam indicação e benefícios com os tratamentos com a cannabis medicinal. O aumento nos números tem relação com a quebra do preconceito, o acesso à produtos que antes custavam mais de 1 mil reais o frasco e hoje estão em torno de 350 até 700 reais, o maior número de profissionais que tem se especializado na área de medicina canabinoide e a própria divulgação nas mídias e redes sociais.
MH – Ainda há resistência de parte da classe médica — e especialmente de dentistas — à prescrição de canabinoides. A que o senhor atribui isso?
As pesquisas com esta planta, considerada um tesouro farmacológico pelo saudoso professor Raphael Mechoulam da Universidade Hebraica de Israel, ficaram muito restritas no século XX devido às políticas de combate às drogas que surgiram no começo dos anos 30. No entanto, tivemos a descoberta dos receptores canabinoides e também dos endocanabinóides (veja linha do tempo no infográfico abaixo) que são substâncias produzidas pelo nosso próprio organismo e que tem função muito peculiar, atuando em parceria com os sistemas nervoso, hormonal e imunológico, entre outros. O SEC foi descoberto nos anos 1990 e até hoje esse assunto não está nas graduações dos cursos de medicina ou odontologia. Por isso que não existe resistência, mas sim desconhecimento, tanto da planta quanto do SEC. Um dos meus propósitos como professor, pesquisador e médico de família e comunidade é realizar a divulgação científica levando informação de qualidade e demonstrando que temos diversos estudos clínicos realizados em humanos comprovando os efeitos terapêuticos da cannabis medicinal.
MH – A regulamentação pode reduzir custos para o paciente e para o sistema público de saúde? Como o senhor vê esse cenário no médio prazo?
TG – Sim, o produto de cannabis ao ser cultivado e extraído no Brasil passa a oferecer valores de comercialização mais acessíveis principalmente quando esta produção tiver escala. Temos inclusive a capacidade de produção por meio de laboratórios públicos como o Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fiocruz (Farmanguinhos) e o Instituto Butantan com possibilidade de participar de processos produtivos por já terem tecnologias e pessoal treinado nas análises laboratoriais necessárias para garantir segurança e qualidade. Também vejo um grande avanço na legislação que assume o pioneirismo da EMBRAPA nas pesquisas com banco de sementes trazendo inovação na área de biotecnologia para nosso país e nossa população.
MH – Olhando para o futuro, quais são os próximos avanços necessários para consolidar a cannabis medicinal como uma terapia amplamente aceita no Brasil?
A cannabis medicinal já é parte de alternativas terapêuticas, principalmente quem sofre diariamente de dores crônicas, ansiedade e nos casos de epilepsia refratária. Quem sente dor tem pressa, quem convulsiona tem pressa, quem toma 4 ou 5 medicamentos convencionais e não tem resposta, mesmo trocando de remédio e fazendo o seguimento direito com os especialistas, também tem pressa em melhorar sua qualidade de vida. Por isso eu vejo que existe mercado para vários profissionais de saúde que queiram aumentar a esperança destas pessoas a se dedicar aos estudos e à prática da endocanabinologia – que é o ramo da ciência que estuda o SEC, esta área investiga como compostos da Cannabis (fitocanabinoides como THC/CBD) interagem com receptores, oferecendo potencial terapêutico. Estas novas resoluções da ANVISA colocam o Brasil em um novo cenário deste mercado global de cannabis medicinal que é estimado em mais de 10 milhões de dólares.

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