Redução da luz solar e oscilação nas temperaturas podem alterar substâncias do cérebro ligadas ao bem-estar e ao sono; psiquiatra explica sinais de atenção e formas de prevenção

Com a chegada do outono e os dias progressivamente mais curtos, algumas pessoas começam a perceber mudanças sutis no comportamento: mais sono, cansaço frequente, dificuldade de concentração ou até uma sensação maior de desânimo. Embora muitas vezes atribuídos apenas ao clima mais ameno ou à rotina, esses sinais podem estar relacionados a um fenômeno conhecido pela medicina como depressão sazonal.

Chamado clinicamente de Transtorno Afetivo Sazonal (TAS), o quadro, alerta a psiquiatra Verena Simonetti Bacellar Pinheiro Chagas, da Hapvida, é um tipo de depressão que tende a surgir em determinadas épocas do ano, especialmente durante o outono e o inverno, quando há menor exposição à luz natural e maior variação de temperatura.

Com dias mais curtos, ocorrem alterações em mecanismos biológicos que influenciam diretamente o humor, o sono e o apetite.

“A depressão sazonal não é apenas uma tristeza de inverno. Em algumas pessoas, a redução da luz solar realmente interfere em mecanismos do cérebro que regulam o humor, o sono e a energia”, explica a psiquiatra.

Dra. Verena Simonetti Bacellar Pinheiro Chagas, da Hapvida.

Ela destaca que a luz natural tem papel central nesse processo, pois influencia diretamente o relógio biológico, localizado no hipotálamo, região do cérebro responsável por regular diversos ritmos do organismo. Com menos exposição ao sol, podem ocorrer alterações na produção de serotonina, neurotransmissor associado ao bem-estar, e de melatonina, hormônio responsável por regular o sono.

“A luz natural é fundamental para o equilíbrio do relógio biológico. Quando a exposição ao sol diminui, podem ocorrer alterações em substâncias como serotonina e melatonina, que impactam diretamente o bem-estar”, detalha a especialista.

Como consequência, algumas pessoas podem apresentar maior sonolência, sensação de baixa energia, mudanças no apetite, especialmente aumento do consumo de carboidratos, e dificuldade de concentração.

Na maioria dos casos, essas alterações são leves e temporárias. Porém, quando os sintomas se intensificam e passam a interferir na rotina, é importante ficar atento.

Sinais de atenção

Entre os sintomas que podem indicar depressão sazonal estão cansaço excessivo, humor deprimido ou irritabilidade persistente, aumento da necessidade de sono, dificuldade para acordar, maior desejo por alimentos ricos em carboidratos, ganho de peso, dificuldade de concentração e perda de interesse por atividades antes prazerosas.

“Muitas vezes, esses sinais são interpretados apenas como ‘cansaço do frio’ ou desânimo passageiro. Mas, quando se repetem todos os anos no mesmo período e começam a prejudicar o funcionamento diário, é importante buscar orientação profissional”, alerta a psiquiatra.

Mulheres mais suscetíveis

Alguns fatores podem aumentar a suscetibilidade ao transtorno, como histórico pessoal ou familiar de depressão, presença de transtornos de ansiedade, menor exposição à luz natural no dia a dia e viver em regiões com períodos prolongados de baixa luminosidade.

Estudos indicam ainda que mulheres são mais frequentemente afetadas, representando cerca de 70% a 75% dos casos, embora os motivos ainda não sejam totalmente compreendidos.

Adultos jovens também apresentam maior prevalência do quadro em comparação com pessoas mais velhas.

Prevenção

A psiquiatra orienta algumas medidas simples que podem ajudar a reduzir o risco de desenvolver a depressão sazonal ou amenizar seus sintomas. Entre elas estão: buscar exposição diária à luz natural, especialmente pela manhã; manter atividade física regular; preservar uma rotina de sono equilibrada; e manter o contato social e a realização de atividades prazerosas, mesmo em dias mais frios.

“Pequenas mudanças de hábito, como aumentar a exposição à luz natural, manter atividades físicas e de lazer e preservar uma boa rotina de sono, podem ajudar muito na prevenção”, orienta.

Quando os sintomas são persistentes ou mais intensos, o ideal é procurar avaliação com um profissional de saúde mental. Existem abordagens terapêuticas eficazes, que podem incluir psicoterapia e, em alguns casos, tratamento medicamentoso.

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