Psiquiatra alerta para os riscos psicossociais de não conseguir desvincular-se do trabalho mesmo fora do ambiente

Você fecha o notebook, toma banho, tenta assistir a uma série, deita-se na cama, mas sua mente continua respondendo aos e-mails, revisando conversas de trabalho e antecipando problemas do dia seguinte. Essa é a rotina de muitas pessoas cujo expediente tem terminado apenas no relógio, mas segue na mente mesmo fora do local de trabalho.

Em tempos em que a jornada de trabalho começa nos grupos do WhatsApp antes mesmo do café da manhã, especialistas alertam para um comportamento silencioso que tem afetado cada vez mais a saúde mental das pessoas: a incapacidade de “se desligar” do trabalho. Segundo Gabriel Elias de Oliveira, gerente nacional de Telepsiquiatria da Hapvida, esse estado de alerta constante está diretamente ligado à ansiedade e ao estresse acumulado na rotina.

“Ansiedade é justamente esse processo de preocupação excessiva. Quando a pessoa está submetida a níveis elevados de pressão, essas preocupações podem entrar em um automatismo e se tornar recorrentes, mesmo fora do horário de trabalho”, explica Oliveira.

De acordo com o especialista, a mente pode entrar em dois movimentos muito comuns: revisitar mentalmente situações já vividas durante o expediente ou antecipar problemas que ainda nem aconteceram.

“Algumas pessoas ficam ruminando conflitos e demandas do dia. Outras vivem em estado antecipatório, tentando prever tudo o que terão de enfrentar no dia seguinte. Em ambos os casos, o cérebro permanece em estado contínuo de alerta”, afirma o psiquiatra.

WhatsApp antecipa e prolonga horário de trabalho

Se antes o expediente tinha hora para iniciar e terminar, hoje em dia, ele acompanha muitos trabalhadores até o momento final do dia, já em casa. Dormir olhando mensagens de trabalho e acordar checando notificações tornou-se automático. Esse hábito, conforme Oliveira, está entre os mais prejudiciais para a saúde emocional.

“Esse é certamente um dos piores hábitos que uma pessoa pode ter”, alerta o especialista.

O médico explica que o cérebro precisa de separação entre os espaços de descanso e os espaços de cobrança mental. Quando essa divisão desaparece, o corpo passa a funcionar em estado constante de vigilância. 

Psiquiatra Gabriel Elias de Oliveira

“É importante compartimentalizar as preocupações. Quando alimentamos deliberadamente que o trabalho invada todos os ambientes da vida, aumentamos muito os níveis de estresse e ansiedade”, diz.

O impacto é ainda maior no período noturno. “Olhar grupos de trabalho antes de dormir atrapalha diretamente a fisiologia natural do sono. O corpo não consegue ativar adequadamente os mecanismos de descanso”, completa o psiquiatra. 

Pela manhã, o efeito também é negativo. “A pessoa mal despertou e já recebe uma carga estressora. Isso aumenta rapidamente os níveis de cortisol e faz o cérebro começar o dia já sob tensão”, enfatiza.

Sinais do corpo

Embora muitas pessoas encarem o ritmo acelerado da vida como algo “normal”, segundo o psiquiatra, o corpo costuma dar sinais claros do contrário. Sensação constante de sobrecarga, irritabilidade, dificuldade para relaxar e fadiga mental estão entre os sintomas mais comuns, mas os impactos podem ultrapassar o emocional.

“A ansiedade passa muito para o corpo. Tensão muscular, palpitações, tremores, alterações no sono, no apetite e até no funcionamento intestinal podem aparecer. A libido também pode ser afetada”, explica. Para o especialista, existe uma frase que resume bem esse processo: “Mente adoecida, o corpo paga”.

A dificuldade de se desconectar do trabalho também pode abrir caminho para quadros mais graves, como a Síndrome de Burnout, associada ao esgotamento profissional.

“O burnout é justamente um quadro ansioso descompensado ligado ao trabalho. E ele costuma surgir quando a pessoa entra em um ciclo vicioso, sem conseguir criar momentos reais de desligamento mental”, explica o médico.

Encerre o expediente!

Mesmo com uma rotina acelerada, pequenas mudanças podem ajudar a reduzir o impacto mental da hiperconexão ao trabalho. O psiquiatra aponta que o primeiro passo é escolher, de forma consciente, encerrar o horário de trabalho ao final da jornada.

“É importante que exista uma atitude deliberada de encerrar o expediente. O cérebro precisa receber sinais de que aquela etapa do dia terminou”, orienta.

Atividades físicas, hobbies e momentos de relaxamento após o expediente também ajudam o organismo a reduzir os níveis de cortisol, o hormônio relacionado ao estresse. “Criar rituais simples de encerramento faz diferença. O corpo precisa sair do estado de alerta para conseguir descansar de verdade”.

Confira as dicas do especialista:

  • Estabeleça limites digitais e silencie notificações fora do expediente;
  • Evite grupos de trabalho antes de dormir e ao acordar;
  • Crie rituais de encerramento do dia, com atividade física, relaxamento ou hobby;
  • Faça pausas mentais ao longo do dia;
  • Cuide da higiene do sono: mantenha horários regulares, evite telas à noite e deixe o quarto escuro e silencioso.

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