
Julho costuma ser sinônimo de descanso para muitas crianças. Mas, para os ortopedistas, o mês marca o início de uma temporada bem diferente: a do aumento dos acidentes domésticos envolvendo crianças e adolescentes.

E, neste ano, com a previsão de frio e chuvas acima da média, tudo indica que boa parte das famílias deve passar mais tempo dentro de casa ao longo das férias escolares. Com isso, salas e quartos, podem tornar-se cenários de quedas, entorses e até fraturas durante as brincadeiras.
O alerta é feito pelo ortopedista Carlos Henrique Gazineu Abdenur, da Hapvida. Segundo ele, o período de férias representa um dos momentos de maior demanda por atendimentos ortopédicos pediátricos.

“Julho concentra um aumento de 40% a 50% nos atendimentos de crianças e adolescentes na ortopedia. Com o frio, eles passam mais tempo dentro de casa e isso aumenta significativamente a ocorrência de quedas em ambientes domésticos. Sem que os pais percebam o risco, muitas vezes, sofás viram trampolins, beliches se transformam em brinquedos, camas elásticas ganham uso intenso e desafios inspirados nas redes sociais completam uma combinação que pode terminar no pronto-socorro”, explica o médico, destacando que estudos da Academia Americana de Pediatria apontam que acidentes por quedas chegam a triplicar quando as crianças permanecem por mais tempo em ambientes fechados.
Perigo no baixo
Entre as maiores surpresas para os pais está um dado que desafia a lógica: nem sempre as quedas de maior altura são as mais perigosas. Segundo Abdenur, uma simples pirueta sobre o sofá pode provocar lesões tão graves quanto uma queda de uma escada alta.
“O que mais surpreende é que uma queda a menos de um metro de altura, pode causar fraturas tão importantes quanto uma de três metros. Isso acontece porque a criança costuma apoiar todo o peso do corpo em um único ponto ou bater diretamente em quinas e móveis, ampliando a força do impacto”, afirma.
Outro alerta importante envolve as chamadas “quedas sem gravidade aparente”. Muitas crianças levantam logo após o acidente, voltam a brincar normalmente e transmitem a impressão de que nada aconteceu. “Elas podem apresentar fraturas não deslocadas ou lesões na cartilagem de crescimento, que são difíceis de identificar sem avaliação médica. Quando não tratadas corretamente, essas lesões podem provocar deformidades e comprometer o crescimento do osso no futuro”, explica o ortopedista.

O especialista orienta que os pais procurem atendimento médico sempre que houver dor persistente, dificuldade para movimentar braços ou pernas, inchaço importante, choro intenso ou qualquer deformidade visível após uma queda. “Só porque ela voltou a brincar não significa que esteja tudo bem. Atendemos pacientes que passaram horas brincando normalmente e, depois dos exames, descobrimos uma fratura”, completa.
Desafios On-line
Se antes os acidentes estavam ligados principalmente às brincadeiras tradicionais, hoje um novo personagem passou a frequentar o consultório dos ortopedistas, as redes sociais.
Desafios envolvendo saltos, piruetas, provas de equilíbrio e outras tendências compartilhadas em plataformas digitais têm influenciado cada vez mais o comportamento dos pequenos. “O adolescente já possui uma impulsividade natural. Quando isso se soma à pressão para gravar um vídeo, reproduzir uma tendência ou conquistar curtidas, o risco aumenta muito. Temos observado um crescimento importante desse tipo de acidente nos últimos anos”, afirma Abdenur. Segundo ele, estudos internacionais apontam aumento de cerca de 35% nas lesões relacionadas a desafios que surgem nas redes sociais.
Férias seguras
Apesar dos riscos, o ortopedista reforça que a solução não é proibir as brincadeiras, mas adaptar os ambientes e aumentar a supervisão de um responsável. “Mais importante do que dizer ‘não’ é conversar com a criança, entender por que ela quer reproduzir determinado desafio e mostrar os riscos envolvidos. É possível brincar bastante durante as férias sem abrir mão da segurança. Crianças se divertem muito mais quando o ambiente também brinca a favor delas. Beliches devem contar com proteção lateral, camas elásticas precisam estar instaladas sobre superfícies que reduzam o impacto das quedas e escadas exigem atenção constante. Já os sofás, por mais convidativos que pareçam, não foram feitos para saltos e acrobacias”, conclui, elencando os maiores causadores de atendimento médico:

Campeões de atendimentos ortopédicos nas férias de julho:
- Quedas de beliche (fraturas de úmero e rádio);
- Brincadeiras em camas elásticas (entorses de tornozelo e lesões no joelho);
- Piruetas e saltos no sofá (fraturas de clavícula e costelas);
- Desafios inspirados nas redes sociais, como saltos e acrobacias;
- Móveis que tombam ou servem de apoio para escaladas (compressões e entorses de punho).
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